Morre Fênix, cão bombeiro de Goiás que encontrou vítimas em grandes tragédias pelo país
Animal participou de dezenas de buscas e ajudou a localizar uma vítima soterrada durante as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024
O Corpo de Bombeiros Militar de Goiás perdeu, na quarta feira, 2 de setembro, um dos principais cães de busca de sua história. Fênix participou de dezenas de operações e ajudou bombeiros a encontrar pessoas em cenários de difícil acesso. Entre as missões mais marcantes está a atuação durante as enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul, em 2024.
Na ocasião, equipes buscavam uma pessoa desaparecida havia pelo menos uma semana em uma região de barranco e terreno montanhoso. Outros grupos já haviam percorrido a área sem localizar a vítima. Quando Fênix entrou em ação, porém, o cão indicou um ponto específico e permitiu que os bombeiros realizassem a retirada.
Além das operações fora do estado, Fênix atuou em diversas buscas em Goiás, principalmente em regiões rurais. O treinamento também preparou o animal para trabalhar entre escombros, áreas de deslizamentos e outros ambientes de risco. Nessas situações, o cão buscava tanto pessoas vivas quanto restos mortais.
A trajetória de Fênix, no entanto, começou antes mesmo do trabalho de busca e salvamento. Ele era filho de Vênus, cadela que atuou em operações realizadas após o rompimento da barragem de Brumadinho. O Sargento Wanderley, responsável pelo treinamento de Vênus, também acompanhou a formação do filho.
Fênix foi o único filhote que sobreviveu
A própria origem do nome de Fênix carrega uma história de sobrevivência. Vênus morreu durante o parto e os filhotes precisaram receber cuidados especiais logo depois do nascimento. Segundo a Cb. Thaynara, que conviveu com o cão, apenas ele conseguiu sobreviver.
“A Vênus faleceu durante o parto e os cães precisaram ser amamentados por uma mãe de leite, voluntária, e acabou que as duas fêmeas não sobreviveram. O único que sobreviveu foi o Fênix. E até por isso, ele ganhou o nome, porque ele renasceu das cinzas”, contou a Cb. Thaynara, que conviveu com o cão.
Desde os primeiros meses, Fênix demonstrou características que chamaram a atenção dos bombeiros responsáveis pelo treinamento. Por isso, a equipe iniciou uma rotina diária de preparação para desenvolver habilidades de busca e localização. O cão começou a participar de ocorrências ainda muito jovem.
“Ele começou a trabalhar até um pouco antes do período que a gente indica. Com oito meses ele já estava atendendo ocorrência, encontrando pessoas”, relatou.
Cão atuava na busca por pessoas vivas e vítimas
Ao longo da carreira, Fênix recebeu treinamento para localizar pessoas vivas e remanescentes mortais. Segundo Thaynara, o cão apresentava desempenho acima da média nas duas atividades. Em Goiás, as buscas em áreas rurais fizeram parte de boa parte das ocorrências atendidas por ele.
Além da capacidade durante as operações, os bombeiros destacavam o comportamento equilibrado de Fênix fora das missões. O animal mantinha uma ligação próxima com o Sargento Wanderley, que se tornou seu condutor e parceiro durante toda a trajetória.
“O Fênix sempre foi um cão muito, muito equilibrado, muito inteligente, trabalhando e fora do trabalho também. Era um cachorro muito apegado ao condutor, ao Sargento Wanderley. Os dois foram parceiros por toda a vida”, disse Thaynara.
Com o avanço do treinamento, Fênix também passou a integrar operações de grande porte fora de Goiás. Ele participou de buscas relacionadas ao desaparecimento de um turista dos Estados Unidos na Chapada dos Veadeiros. Além disso, esteve em uma missão realizada em Pernambuco, em 2022.
Missão no Rio Grande do Sul marcou trajetória
Entre tantas ocorrências, uma das operações que mais marcou os bombeiros aconteceu durante as enchentes do Rio Grande do Sul, em 2024. O Corpo de Bombeiros de Goiás enviou equipes especializadas ao estado para apoiar os trabalhos de busca após os temporais.
Em uma das ocorrências, as equipes tentavam localizar uma vítima desaparecida havia pelo menos uma semana. O terreno acidentado dificultava o trabalho dos militares. Mesmo após buscas anteriores, ninguém havia conseguido identificar o ponto onde a pessoa estava soterrada.
“Ela estava soterrada em uma região de barranco. As equipes locais já tinham feito buscas, mas não tinham conseguido localizar. Quando a equipe de Goiás chegou com os cães, o Fênix indicou um ponto e, a partir dali, a gente conseguiu encontrar a vítima e fazer a retirada, devolvendo ela para a família”, destacou a CB.
Para os bombeiros, situações como essa mostram a importância dos cães treinados em operações nas quais cada minuto pode alterar o resultado das buscas. Fênix conquistou a confiança das equipes justamente pela precisão que demonstrava durante as ocorrências.
Bombeiros lamentam perda de Fênix
A morte do cão provocou comoção entre os militares que acompanharam sua trajetória. Para Thaynara, Fênix deixou uma contribuição difícil de dimensionar. Além de encontrar pessoas com vida, o animal ajudou famílias a recuperarem os corpos de parentes desaparecidos.
“É um cão que já salvou um monte de gente viva, já deu conforto a um monte de família encontrando os restos mortais dos familiares. Vai fazer falta. Um cão de trabalho excepcional, que a gente tinha uma total confiança de trabalhar com ele. Confiança e orgulho”, afirmou.
Embora carregasse a história de Vênus, Fênix construiu uma trajetória própria dentro do Corpo de Bombeiros de Goiás. As missões realizadas durante sua vida fizeram com que militares passassem a tratá lo como integrante da própria corporação.
“Aqui a gente trata ele como um herói, tão importante como a vida de qualquer bombeiro aqui ou até mais, porque o que ele já conseguiu fazer pelos outros, pelo CBMGO, pelas pessoas, não dá para contabilizar”, destacou.
Corpo de Bombeiros presta homenagem
Após a morte de Fênix, o Corpo de Bombeiros Militar de Goiás publicou uma homenagem ao cão. A corporação destacou a participação dele em operações realizadas dentro e fora do estado ao lado das equipes especializadas.
Durante anos, Fênix acompanhou bombeiros em buscas que exigiam treinamento, resistência e precisão. Assim, tornou se uma presença conhecida entre os militares que atuavam nas ocorrências de localização de desaparecidos.
A despedida também encerra uma parceria construída desde os primeiros meses de vida do animal. Ao lado do Sargento Wanderley e de outros militares, Fênix participou de operações que levaram respostas a famílias em momentos de extrema dificuldade.
“Ele encerrou a história dele. Aqui se encerra a história de um herói”, concluiu.
(O jornalista Thyago Humberto, editor do Portal Cerrado Notícias, orienta o estudante de jornalismo Vinicius Lima.)





